Cravos e Rosas

Assunto sem fim e espinhento é esse das diferenças entre os gêneros.

Tantas publicações, discussões, reflexões... Já se disse que mulheres são de Vênus, homens de Marte. Que essas talvez usem mais o lado esquerdo enquanto eles o direito do cérebro... Se constratou racionalide e intuição... Mas, onde eu quero chegar?

Bom, gostaria de dividir algo mais plausível, um elemento novo para toda essa discussão...

Me dou conta desde a infância: mulheres espremem cravos  de seus parceiros em locais públicos!

A cena é dramática. Elas em perfil investigativo, obstinadas. Mal acabam de limpar um poro já buscam por outro que possa estar entupido. Eles, com cara de sofrimento e dor. Invariavelmente maquiada por macheza.

Nem sequer uma vez vi essa cena ser protagonizada com os papéis invertidos.

Seja em parques, na praia ou nas esquinas da cidade...

 Os cravos parecem estar para as mulheres assim como os rabos de saias para os homens, uma atração inevitável.

Partindo daí talvez possamos voltar às análises: homens seriam visuais enquanto mulheres procuram mais contéudo – ainda que sejam impurezas da pele ?

E por que eles aceitam essa situação? Porque não dizem: “meu bem, vamos para com isso agora mesmo, sua unha me machuca” ?

Saber eu não sei... mas tenho uma teoria.

Pra mim, eles perceberam que o espremer cravo proporciona à mulher uma poderosa catarse. Postergando assim uma “DR” sobre temas mais abstratos como sentimentos e e emoções.

Explico melhor:  acredito que comprimir cravos em público dê a mulher a sensação prática de investigação  e correção de uma  impurezas do parceiro. O cravo ao ser pressionado,  torcido e premido é arrancado e suprimido passando a não ser parte integrante do companheiro. A  ação em público tem caracter moral, passaria a impressão de que aquele casal resolve seus pontos escuros com clareza.

Imagino que o homem acha a moeda de troca vantajosa. A dor física da supressão dos cravos é fichinha comparada aos abalos de uma disussão de relacionamento subjetiva e infinita...

Além disso, ao menos alí, ambos visualizam o mesmo contexto e desdobramento, sem necessidade de uso de palavras. Ao final,  ela tem posse da prova concreta e gosmenta  do fato gerador e ele tem evidências reais.

Um mundo em constante mudança. Homens e mulheres invertendo papéis, se reiventando, aprendendo juntos  novas experiências...

Pois é, mas  espremer cravo em público parece típico das necessidades do gênero feminino. E aceitar o ato em silêncio característico do pragmatismo do gênero masculino. Sintetizando, uma vez mais e escrachadamente, a  distinção dos gêneros.

Heróis da Resistência

 

 

Na Páscoa a família se reuniou na sala.

Sentada no sofá, conversei com vovó sobre o filme do Almodovar que passava na TV; “Fale com ela”.

No alto de seus 80 anos vovó não se surpreendia com o enredo...

“Minha querida,  a vida tem dessas. Nem sempre sabemos classificar o que vai nos salvar e o que irá nos prejudicar.  Enquanto houver vida e coragem, é possível tentar descobrir”....

 

Lembrei do clip do Blind Mellow, "No Rain".

 

O começo do clip parecia o fim. Mas o que de fato surgia era a bandeira da resistência.

A busca desenfreada da Abelinha atípica. Correndo pelo mundo, divertindo quem estivesse aberto, assistindo demolições, persistindo na procura....

O que parecia aniquilar suas chances de adaptação acabou salvando-a da vida comum.

Desencanou do palco e achou um portão num campo florido, onde dons - e a falta desses - foram apreciados.

 

Como vovó já poderia supor!

 

Link do clip: http://www.youtube.com/watch?v=qmVn6b7DdpA

Simulador de Caminhada.

Almeida é do tipo que só sabe andar fora dos trilhos. À margem da normalidade, ele é um ser excêntrico.  

Acorda todos os dias com o pé esquerdo, pra dar mais sorte. Mora com a esposa no 13.o andar do condomínio de nome Torres Gêmeas.  Sempre que dá, passa férias em Osasco, na casa da Tia Amélia. Dirigi um carro laranja de marca russa e sua esposa sorridente tem bunda grande – uma unamidade nacional que Almeida não consegue desaprovar.  

Na repartição onde trabalha, é um cara querido. Incomum, figura, doido mas competente, seja como for, Almeida não passa de fininho...

Certo dia, após o trabalho, Almeida chega em casa carregando uma bóia gigante. Ao entrar,  encontra sua senhora com um novo equipamento de ginástica. Ambos, tinham como resolução de ano novo, começar a praticar mais esporte...

- Benzinho, venha ver meu simulador de caminhada!

- Gordona, veja a bóia que comprei pra usarmos na piscina!

Almeida se pôs a caminhar no novo utensílio domestico; enquanto a esposa conferia qual biquini combinava melhor com a bóia.

O equipamento exigia de Almeida encaixe perfeito dos pés, em linha reta. Desacostumado que era em seguir uma rotina com objetivo fixo,  permanecendo em movimento retilíneo e uniforme, ele se superou no treino. Caminhou por mais de uma hora, para perder os toicinhos que acumulara na ceia do Natal.

Suou a camisa, mas não só por conta do esforço cardiovascular; o desgaste emocional também o abalou. Como era difícil se enquadrar no tal equipamento e permanecer nesta moto-contínuo vai e vem em horizonte estreito, com os pés em perfeito encaixe, na máquina de fingir de andar pra frente.

Terminada a tormenta, Almeida jantou e tomou banho. Deitou e dormiu com os cabelos molhados, como era de costume.

No dia seguinte, ligou pro trabalho e avisou ao Hernane que faltaria:

- Garotinho, estou com uma contratura na batata da perna que não é brinquedo não. Hoje nem por decreto coloco os pés no chão...

Ao desligar o telefone, Hernane avisou à equipe:

- Pessoal, o Almeida não vem... Não tem jeito, ele nunca vai andar na linha!

 

A Entrevista.

Lembrando da She-Ra e de outras heroínas da minha infância, lá fui eu, com os cabelos esvoaçantes, me encontrar com você.

Com espada emprestada e segurança herdada, abordei assuntos com tanta delicadeza e assertividade que até poderiam deixar a mulher-maravilha impressionada.

Fui quase divertida, quase inteligente, quase super poderosa, quase humana... Quase eu mesma...

Certa vez me disseram que o equilíbrio está no meio. Não estou certa se isso é regra ou exceção. Mas, por falta de referência ou criatividade, recorro ao cavalo dado.  E assim, em situações como essa, opto pela coluna do meio, a letra C das múltiplas escolhas. Evitando a zebra a todo custo, tentando sacar, em segundos, o que é o Certo e o Errado pra sua cabeça.

 Medindo tudo, calculando o desgaste, fui falando meticulosamente sobre minhas qualidades e defeitos... Nenhuma dose inteira, nenhuma garrafa cheia. Tudo na base do gole, do trago, do tira-gosto. Agi como uma desempregada sem grana, que na ânsia de se divertir, vai pro bar e pede uma água. Me sentia como um carro 2.0, com pouca gasolina, que busca o posto mais próximo em ponto morto.

Ser blasé nunca combinou comigo, apesar de gostar de bege. A idéia de viver e sentir  mornamente, nunca fez minha cabeça. Mesmo sabendo que na real nem sempre dá pra ser diferente disso.

De toda forma, o que realmente acharia importante você saber é que gosto de suco que vem na jarra, de praias com dunas e de churrascarias. Acho legal também te contar que peço tigela de açaí grande, e que quero sim um salário bom.  Poderia ser de grande valia traçar um paralelo e salientar que minha manicure preferida sorri enquanto trabalha, e que tem um carrinho de três andares cheio de esmaltes sortidos...  

Pois é, mas você não queria saber nada disso. Apertou-me a mão com assepsia, me entregou uma ficha e pediu que eu me sentasse, preenchesse e aguardasse. A sala era fria e vazia, na mesa tinha um copinho de água, de plástico, suado. Emprestou-me um lápis com ponta redonda de tanto uso – e não me trouxe borrachas. A ficha continha um teste chinfrim, que traçaria meu perfil comportamental e psicológico. As folhas eram xerocadas e estavam com orelhas. Esperei por meia hora sentada, sem nenhuma alma por perto e sequer uma indicação de onde seria o banheiro...   

Depois disso, você retornou e me entrevistou. Declarou que aquele era um momento para “nos conhecermos melhor”.  Fez as perguntas de sempre, ouviu-me, falou, escreveu. Sorriu e se despediu.

E agora, já distante da Princesa do Poder, aguardo sua ligação. Para quem sabe agendar mais um desses encontros, na próxima segunda-feira.

Sonhando acordada.

Aconteceu de repente. Caminhava sozinha, rumo uma subida íngreme quando o movimento me ocorreu tão nato quanto respirar.

O dia estava ensolarado, os ipês floridos e o vento soprava favoravelmente.  Iniciei uma leve corrida, sacudi os braços em gestos curtos e rápidos e subitamente voei.

Satisfeita, flanei sem rumo. Do alto via pedestres andando com pressa, carros buzinando e crianças brincando na rua.

Num céu azul de brigadeiro, típico do mês de Agosto, tudo na vida me parecia muito simples e fácil – inclusive voar. Perdi a noção do tempo e acredito ter voado por horas, pois foi no exato momento em que decidi pousar que o rádio despertador tocou.

Era uma manhã de terça-feira, agora eu me encontrava desperta e deitada em minha cama. O sonho havia terminado, o dia tinha de começar e às 9h na sala 1 haveria a reunião no trabalho. Já no chuveiro, planejei a rotina e revi os pontos que me pareciam mais relevantes a serem abordados – obviamente uma promoção e conseqüente aumento de salário obtiveram maior destaque.

De salto alto e a caminho do carro, pensei no trânsito que enfrentaria. E pela primeira vez desadormecida, ousei reproduzir a manobra do sonho e confirmar se de fato não conseguiria voar. Verifiquei se não havia ninguém por perto e fiz os movimentos de braço e perna. Porém, a decolagem não ocorreu.

Horas se passaram, e após um exaustivo almoço com meu chefe e de míseros 10% de aumento em meu salário, decidi que aquela quimera teria de ter mais significado em minha vida. Liguei para o meu irmão e pedi o telefone da escola de pára-quedismo que ele freqüentava, era hora de eu tentar. Antes, claro, contei meu sonho. Este foi fortemente aclamado e recebeu o prêmio- consolação “melhores sonhos que alguém – que não seja o homem-pássaro - pode ter”.

Mas voar literalmente não me pareceu o suficiente. Almejava mais definições pro sonho. Desejava não só sentir uma breve concretização física –  que dentro de um mês se realizaria, quando iria à Boituva saltar de pára-quedas – mas também ansiava sua realização mais subjetiva, metafórica.

Aspiro que possamos dar asas aos nossos sonhos e à criatividade; e que, ao menos de vez enquanto, sejamos capazes de tirar um pouco os pés do chão e experimentar a total falta de referência com a desenvoltura e o desprendimento com que é possível voar enquanto dormimos. E neste momento dou o primeiro passo no ar, escrevendo esse texto. 

 

Rompendo ciclos.

  - Por que será que nós dois juntos não funciona?

 

  -  ...

 

  - Você acha que o problema sou eu ou você?

 

  - Bom, pra te falar a verdade... Ah, deixa pra lá. Não sou seu psicólogo e acabo de me tornar seu ex-namorado...

 

  - Mas seremos amigos, não? E amigos se criticam e se ajudam, certo?

 

  - Ok, então te digo. Para mim o problema é seu pai.

 

  - Meu pai?

 

  - É. Ele é um radical livre. Ele é extremamente medroso, pragmático e formal; isso acaba te influenciando de uma maneira tão negativa que não só te envelhece fisicamente como, principalmente, mentalmente. Seus pensamentos ficam domesticados numa rede viciada, onde todo risco é entendido como perigo eminente de errar. Pra vocês, situações novas nunca são vistas como estimulantes desafios, mas sim fortes obstáculos ao perfeccionismo familiar. Com medo de errar, você toma atitudes exageradas frente situações banais. Você literalmente pede penico, acreditando que agiu de maneira brilhante ante aos fatos.

  - O que isso tem a ver com a gente?

  - Tem tudo a ver com a gente. Por medo de se arriscar e errar, você acabou me descartando. Uma vírgula mal colocada num comentário que fiz, foi o pivô. Seu medo maquiado em prepotência entrou em ação, analisando esse meu lapso como uma falha grave e uma provável inconsistência do meu caráter. Sendo assim, continuar se relacionando comigo seria um erro e a saída mais coerente seria terminar o namoro. Você, seguindo o exemplo familiar, está se tornando um radical livre: uma mente envelhecida, medrosa e ranzinza.

  - Nossa, acho que entendi.  Preciso pensar.

 ...

  - Sabe, aquela história dos radicais livres salvou o futuro dos meus relacionamentos. Obrigada.

  - De nada. Temi te magoar, mas me senti bem em dizer.

  - E me ajudou dizendo... Senti muito sua falta nesses dias. Vi o quanto você vinha sendo especial na minha vida e entendi como você é companheiro, inteligente e sensível. Percebi o paradoxo que me encontrava, onde por medo de falhar acabava errando muito mais e cobrando dos outros uma perfeição que eu sequer tenho. Mas eu quero mudar! Deixar de lado o radical e ser somente o livre. Livre para arriscar, errar e principalmente amar... Dando menos ênfase às vírgulas e me aventurando mais em interrogações.

  - Parece ótimo.

  - E você, quer ser meu amor nessa nova fase?

 FIM.

A Ligação.

Julia dirigia pelas ruas de São Paulo, era uma madrugada chuvosa e fria. Feito um mantra mental, uma frase não lhe saía da cabeça. Ruminaria ela até o telefone tocar, horas mais tarde...

A festa foi badalada, bebida de qualidade e decoração impecável.

Já em casa, enquanto tirava a maquiagem e liberava displicente cada um dos dedos do pé, ainda ressoava em sua mente:

“De todos os meus defeitos, o medo é o mais engenhoso.”

Rafael estava bêbado quando disse isso.  A frase foi gritada à Julia, na pista de dança, em meio um sorriso indefinido. Em seguida, ele deu alguns passos trôpegos até o garçom mais próximo e saiu vagando pelo salão. Até o final da festa, Julia não o viu mais.

Rafael e Julia não eram amigos. Encontravam-se eventualmente, em festas oferecidas por colegas em comum. Ele não despertava nela nenhum sentimento amoroso ou carnal. Ela não parecia ser o tipo dele. Os dois eram o que socialmente poderíamos chamar de “estranhos conhecidos”.

Julia não se sentia medrosa. É certo que tinha alguns receios, vez por outra, mas há anos se julgava independente, valente e guerreira. Por que tal frase não lhe saía da cabeça, então? Seria o fato de ter sido proferida por um homem? Pensou por horas e não conseguiu dormir. Como ele concluíra que o medo era habilidoso? Sentindo-se num turbilhão da neurose ela decidiu sair de casa.

Iria nadar. O dia já estava claro e o sol iluminava um céu azul sem nuvens. Era um sábado de inverno, o clube estaria aberto e o parque aquático era o melhor lugar para mergulhar suas dúvidas.  

Nadou mil metros e sentiu-se reconfortada. Saindo da piscina, o vento estava gelado e a toalha macia. Decidiu ir embora, se vestiria e voltaria para casa. Acreditou que o cansaço físico venceria a neura e então dormiria.

A caminho do vestuário, notou que na piscina ao lado todos os trampolins estavam liberados. Isso era raro no clube. Um salva-vidas entediado aguardava o tempo passar.

Julia decidiu pular. Há meses não saltava...

Caminhou em direção aos trampolins, e começou a subir nas escadas, quanto mais alto chegava mais gelado o vento lhe parecia. Subia rumo ao trampolim de 5 metros, o guarda-vidas acenou com simpatia lá de baixo, mostrando prontidão.

Julia estava decidida, o frio lhe corria à barriga e o calor da ação lhe aquecia os músculos. Terminada a escadaria, caminharia em direção à queda. Já no corredor de concreto, que conduzia ao trampolim, a frase lhe ocorreu uma vez mais, e ela sorriu confiante, saboreando de sua própria bravura.

Foi nesse exato momento que o celular tocou. Notou que havia se esquecido de deixá-lo lá em baixo, junto à toalha, na borda da piscina. Refletiu que se pulasse e largasse o celular lá em cima, teria de encarar novamente muitos degraus e o frio, para resgatá-lo. E caso descesse antes de pular, para guardá-lo, dificilmente subiria novamente. Pular com o celular estava fora de cogitação. Atendeu à ligação.

Esperando por Morpheus.         

Nas noites de sábado, Rita e Osvaldo gostavam de conversar sobre os mais variados assuntos:

- Rita, você já reparou que não existem mais histórias de sonâmbulos como antigamente?

- Como assim? - respondeu ela, sorvendo mais um gole de licor de chocolate.

- Ah, na minha infância não faltavam dessas histórias. Meu pai contava que, quando jovem, minha tia Zezé foi flagrada noctâmbula na lavanderia. Ela tomava água na torneira do tanque e espalhava sabão em pó pelo chão, imaginando que estava preparando um banho de espuma.

- Essa é boa. - balbuciou Rita.

- Pois é. E faz anos que não ouço nada parecido.

- Mas tinha também aquela do Maneco, lembra? – indagou Rita

- Como me esqueceria?! O coitado jurava estar num baile de carnaval em Veneza, por conta de uma goteira que caía incessantemente sobre a cama dele. Caminhou até a sala em busca de uma máscara para o baile.

E riram juntos, lembrando do amigo querido.

- Mas então Rita, faz quanto tempo isso? De lá pra cá nunca mais ouvi nada parecido!

- De fato. Será um sintoma do estresse dos “tempos modernos”? – indagou Rita

- Pode ser. Tanta gente hoje em dia sofre de insônia.

- É... – Rita concordou displicentemente.

- Ou talvez a diminuição dos metros quadrados nas residências esteja contribuindo para a falta de criatividade dos adormecidos. – Osvaldo arriscou-se em replicar.

 - Aí Valdo, só você pra cogitar uma coisa dessa. Se estivesse te ouvindo agora, nossa filha iria logo citar algum filósofo que pudesse, de alguma maneira, validar esse disparate que você acaba de dizer.

Osvaldo sorriu orgulhoso.  Para ele, a filha Lara sempre foi muita carinhosa e sensata. E foi então que ele comentou:

- Querida, falando na Larinha, me recordei de algo inusitado. Lembra-se que na terça fui almoçar com ela?

 - Claro. – respondeu Rita, ajeitando-se no sofá, curiosa para saber da filha.

- Então, fomos no prédio onde ela trabalha.  Estávamos no saguão quando ela viu um colega de trabalho passando. Lara o chamou, pois queria me apresentar.

 - Sei-sei. E era bonito esse rapaz? – questionou Rita, idealizando a filha de branco no altar.

- Ah Rita, você tem cada uma. Eu vou lá saber se homem é bonito? O que sei é que ele vestia terno e gravata e estava com o olhar esvaziado. Tive a impressão que ele estava lá fisicamente, mas que sua essência fora abduzida. Ele devia estar em outro mundo, pois não ouviu nossa filha o chamando.

- Jura?  E qual foi a reação da Lara? – perguntou Rita.

- Ela ficou sem graça, e comentou que há dias ele anda muito atormentado. Parece que o departamento em que ele trabalha está passando por uma auditoria. Coisa braba...

-Ah Osvaldo, mas esse garoto não deve estar bem da cabeça. Nossa Larinha, uma menina de ouro, linda e inteligente, ali chamando por ele e ele preocupado com auditoria?  Esse moço está dormindo no ponto.

-É isso mulher! - constatou satisfeito Osvaldo.

- Isso o quê, meu amor?

- É isso mesmo, este rapaz está dormindo. Agora compreendo melhor, ele está sonâmbulo.

- Como assim sonâmbulo, querido? Ele não estava de terno e gravata no trabalho?

- Estava, meu bem. Mas o que eu estou querendo dizer é que, talvez, atualmente, os sonâmbulos estejam por todos os lados. Vão ao trabalho, fazem compras no shopping, atendem auditores e vão às festas. Porém, fazem tudo inconscientemente e ninguém tem coragem ou consegue acordá-los.

- Osvaldo, isso que você está dizendo é muito sério. Eles vivem em constante estado de sonolência?

- Exatamente Rita! Acho até que alguns passam uma vida inteirinha assim, sem nem mesmo se dar conta que é tudo ilusão.

- Aí Valdo, só de pensar nisso me dá uma aflição...

- Sem dúvida, Rita. No entanto, agora começo a achar a chave pro enigma anterior... Volto a enxergar histórias de sonâmbulos por todos os lados...

Dito isso, o relógio cuco bateu meia-noite. Osvaldo e Rita se entreolharam e decidiram que o papo tinha ido longe demais. Era hora de dormirem, e só então os visitaria Morpheus, o mestre dos sonhos.

- Boa noite, Rita.

- Boa noite, querido.

The sound of music: A Noviça Rebelde e Zaratustra.

Desde a infância Malu prezou a diversidade.

Aos 3 anos, ao ser questionada pela mãe sobre qual sabor de suco gostaria – caju ou melancia - Malu prontamente respondeu : “os dois, mamãe!”

Essa vocação à abundância não se restringiu a culinária.

Ainda durante a meninice, Malu brincou de bonecas com as amigas e de futebol de botão com os irmãos. Colecionou papel de carta e rótulos de cigarro. Fez balé e judô.

O tempo passou, Malu cresceu. E sua disposição à variedade também.

Finalizou o ginásio em colégio particular e então decidiu fazer colegial em escola pública.  Ia aos bares e baladas com os amigos, bem como fazia retiros de silêncio com a avó. No mesmo ano em que esteve na Disney, peregrinou em Macchu Picchu.  Lia literatura clássica e revistas de fofoca. Ia ao teatro com os pais e aos jogos de futebol com o namorado.

O primeiro abalo sísmico foi vivido por Malu no vestibular. Em meio a uma crise financeira familiar, ela teria de se decidir profissionalmente. As candidatas eram: Psicologia, Arquitetura, Economia, Filosofia e Engenharia.

A avó, ao ver a neta em seu primeiro dilema existencial, decidiu se pronunciar. Ressaltou à descendente, que também comungava dessa tendência a pluralidade, mas que o mundo via isso com olhos primatas e taxava de indecisão. Pediu à neta que tentasse se adaptar. Malu estava adulta, seus pais falidos e era o momento de aprender a dançar conforme a música.

Foi seguindo o conselho da avó que Maria Luiza Duarte iniciou a faculdade de Administração de Empresas. Estagiou. Bacharelou-se. Foi efetivada e fez carreira em uma renomada multinacional. Bailando também comprou um carro novo, casou-se e financiou o primeiro imóvel.

No entanto, repentinamente, veio uma grande crise mundial. E, numa mesma tacada, Maria Luiza perdeu o emprego, foi traída pelo marido e teve o apartamento penhorado. Nessa época, fez-se o silêncio. Total ausência de som, nenhuma canção tocando na vitrola. E agora, como dançar? Instalou-se em Malu um vazio escuro, indefinido. Desesperada, buscou por referências e lembrou-se das gincanas da escola. Quando a música parava, vencia a melhor estátua.  E petrificada ficou por um longo período.

Ironias da vida. Estranhamente, foi na frente da TV que Malu sentiu pulsar novamente seu ímpeto de realização. Entediada, numa tarde sem sol, enquanto assistia ao filme "A Noviça Rebelde". Acompanhou a noviça cantando e desenrolando o enredo. Foi durante a música "Dó-Ré-Mi", que Malu teve um insight:

Assim como Maria, a Noviça Rebelde e Zaratustra personagem do livro “Assim falou Zaratustra” de Nietzsche, Malu queria subir à montanha e cantar. Já havia dominado a arte de dançar os mais variados ritmos e de se equilibrar enquanto paralisada. Tinha aprendido o bê-á-bá das letras e da harmonização. Tanto empenho em viver as mais variadas experiências haviam lhe rendido vasta vivência. Agora, queria usar essa bagagem e aprender a compor suas próprias canções. Acreditou que a partir de então voltaria a se sentir segura. Ainda que dançasse arranjos de terceiros ou ficasse sozinha no salão, poderia dar seu tom. Assobiaria e entoaria um canto pessoal.

Você realmente precisa dessa relação?

Tinham acabado de jantar. Estavam sentadas conversando despretensiosamente enquanto aguardavam a chegada de Juliana. As três amigas iriam ao cinema.

Enquanto esperavam, Letícia pigarreou, acendeu um cigarro e fez a pergunta. Tinha na voz a carga de anos de curiosidade, e a impressão de que aquilo já poderia ser dito sem magoar a amiga:

- Tati, você não acha que seu ex-marido tinha jeito de veado?

- Sim...  acho sim.

De pronto, Tati lembrou de todo a história, o início do namoro, de como o conheceu vestido de baiana num baile de carnaval, as viagens que fizeram juntos – literais e abstratas, o rompimento, o sofrimento, o renascimento...

Em todas essas etapas, Letícia, a amiga inquiridora, estava presente. Apoiando, ouvindo, rindo e até chorando. Como não responder com sinceridade uma pergunta curiosa que aguardou 10 anos para ousar ser proferida?

Automaticamente, Tati pensou em Juliana.  E na sugestão que há pouco, ao telefone, em viva-voz, a amiga havia lhes feito: “Vamos assistir àquele filme novo da ex do Brad Pitt? Sabem, o que se baseou no livro “Ele simplesmente não está afim de você”?”  

A sugestão feita por Juliana carregava o peso da náusea e a ânsia da catarse. Procurava no filme algum novo elemento que, talvez, pudesse amenizar a dor de um recente e lastimoso fim de noivado.

Elas queriam apoiar Juliana e por isso aceitaram a proposta. Mas, verdade seja dita, Tati não gostou da idéia. Algo, já no título do livro, a incomodava. E finalmente compreendeu o que era. 

Angustiava ver a amiga, logo na capa da obra, sendo colocada na posição de vítima. Ele simplesmente não estava afim dela, e ponto. Mas, e ela, está realmente afim de alguém que não a quer? Por quê? E mais, por que aceitar como resposta algo que a coloca na posição de espectadora do próprio caso amoroso? 

Refletiu sobre a pressão social, sobre o poder inexorável do tempo... Marido, gravidez, filhos... Serão esses os fatores que fazem do “ele” simplesmente não está afim de você uma resposta aceitável?  Será por isso que, no auge da mocidade, algumas de nós, se propõem a casar com homens dos quais duvidamos da masculinidade e até do caráter?

Não seria isso fazer uma poupança com moedas de chocolate, que na verdade nunca possuirão o poder de compra esperado? Não estaríamos nos colocando no papel de crianças que pedem a chupeta ao invés de aceitar a dor da impotência?

Ele simplesmente não está afim de você, pareceu à Tati, um caminho às avessas, uma trilha que decidiu parar de seguir quando terminou o casamento de anos com o cônjuge efeminado. Tinha aprendido a lição, independentemente de ele estar afim ou não, era ela quem não precisava desse tipo de relacionamento que até pode encher a barriga, mas que não nutre.

Subitamente,  decidiu que tão logo encontrasse a amiga, perguntaria afirmando:  Juliana, você realmente precisa dessa relação? Mas, aos poucos, considerou que todos temos nosso próprio tempo de assimilação e amadurecimento.  E, assim como Letícia, Tati decidiu que aguardaria um melhor momento para fazer tal pergunta.  Afinal, certas questões têm de esperar por anos, até que, enfim, tenhamos a ousadia e a suspeita de que já podemos fazê-las.

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